quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Quero

Quero sentar numa estrela
E pintar as cores das palavras
Que se transformam em lágrimas
Neste canto de sossego e harmonia
A cantar pelas declarações
Da saudade pulsante no peito,
Cintilante no olhar
Sempre lembrando e ansiando
Pelo reencontro.

Quero sentar numa árvore
E aprender com os pássaros
Expressões melódicas da emoção libertária
Que se tem ao levantar voo.
Aí, então, passaremos sobre vales e montes
Dizendo, de outra forma, que não cores,
Palavras e lágrimas, do Amor incessante.

Quero deitar numa nuvem
E conversar com ela sobre seus possíveis formatos
Ela me dirá, aí, que sua forma é toda e qualquer
A qual queiramos que seja.
Aprenderei, assim, que os olhos veem
Aquilo que querem.

sábado, 20 de novembro de 2010

Estátua

Estava sentada
e olhei para cima.
As nuvens se mexiam
sobre minha cabeça.
O resto permanecia inerte.

Veio, então, uma borboleta,
Tão azul quanto o mais límpido céu
E pousou em minha perna.
A partir disso, tudo pareceu viver.

As flores sorriam,
as árvores dançavam,
os pássaros cantavam
e eu, em sintonia com a borboleta,
vivia.

domingo, 3 de outubro de 2010

Tudo

Dentro de mim há um tudo.
Um tudo que não tem definição. Um tudo que é alguma palavra jamais pronunciada em língua nenhuma. Um tudo que, ao olhar para dentro, vê grandeza o suficiente em si mesmo, a ponto de saber de sua essência, ainda que não a conheça; ela o é apenas reconhecida enquanto existente. E esse mesmo tudo se vê insignificante ao olhar para fora e crer na infinitude celeste. É um tudo incompreensível que se manifesta dentro de mim quando sinto o vento no rosto, quando mato as saudades de quem amo, quando vejo o amor em situações inimagináveis, quando renovo minhas energias num banho de mar... Um tudo que está dentro de mim, e reconhece sua sinceridade de uma forma que só ele é capaz. E esse "tudo" é quase nada em sua humildade, mas, ao mesmo tempo, é do tamanho do inexplicável.

sábado, 11 de setembro de 2010

1

"Nobody has ever measured, not even poets, how much the heart can hold."
Zelda Fitzgerald

Pode ser...

Um sorriso pode ser espontâneo, descontrolado, secreto, misterioso, engraçado, significativo ou sincero...
Um olhar pode ser assustado, sapeca, morto, confuso, suplicante, mentiroso, transparente ou alegre...

Um toque pode ser ansioso, forte, decidido, receioso, delicado ou arrepiante...

Um beijo pode ser suave, apaixonado, de despedida, saudoso, emocionado, maternal, proibido, amigável ou decisivo...

Uma lembrança pode ser antiga, recente, feliz, já quase esquecida, emocionante, gostosa ou triste...

Uma palavra pode ser no singular, já esperada, mascarada, sozinha, definitiva, no plural, que muda tudo, em voz baixa, fora de contexto, surpreendente, em conjunto ou gritada...

Um silêncio pode ser quebrado, sob dúvidas, infinito, autoexplicativo, constrangedor ou sobre dúvidas...


Agora... uma lágrima?

Pode ser tudo isso.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"Muito longe de casa"


Trechos do livro Muito longe de casa: memória de um menino-soldado, de Ishmael Beah, publicado pela editora Ediouro em 2007. (SUPER RECOMENDO!)

"Uma noite, sentado na praça de uma aldeia, pensando no tanto de caminho que eu já havia percorrido e no que ainda tinha à minha frente, olhei para o céu e vi como as nuvens maiores tentavam encobrir a Lua, e como, apesar disso, ela reaparecia de novo e de novo para brilhar durante toda a noite. Minha jornada, de certa maneira, era como a Lua - apesar de eu ter nuvens bem mais pesadas em meu caminho para entristecer meu espírito".

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"À noite parecia que caminhávamos junto com a Lua. Ela nos seguia sob nuvens densas e esperava por nós do outro lado das trilhas em florestas escuras. Desaparecia com o nascer do sol, mas sempre voltava a pairar sobre nosso caminho na noite seguinte. Seu brilho tornava-se mais sutil conforme as noites passavam. Certas noites o céu era varrido por estrelas que flutuavam e desapareciam rapidamente na escuridão antes que nossos desejos pudessem encontrá-las. Eu costumava ouvir histórias debaixo daquelas estrelas e do céu, mas agora parecia que o céu é que nos contava histórias enquanto suas estrelas caíam, colidindo violentamente umas contra as outras. A Lua havia se escondido detrás das nuvens para não ver o que acontecia".

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"Andamos rápido, como se tentássemos permanecer no dia, com medo de que o cair da noite virasse algumas páginas incertas de nossas vidas".

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Poesia a um poeta.

"ANJO DA VELHA GUARDA

Vivizinha, minha neta,
Bochechinha de carmim
És uma flor bonitinha
Que nasceu no meu jardim.

És a bela borboleta
Que esvoaça no meu céu
Vais crescer moça tão linda
De se tirar o chapéu...

O Vovô não sabe ainda
Quantos anos vai viver
A vida da gente finda,
Só não se sabe por quê

Quando partir desse mundo,
Uma coisa eu decidi:
Não podendo estar contigo,
Ficarei de olho em ti..."


Falcão, Paulo Waldemar. O cristalino espírito da vida. Rio de Janeiro: Editora Elevação, 1999

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ALMA DE PAPEL
Na alma deste papel molhado,
Reside a saudade de ti,
Vovô querido.

Na alma deste papel amassado,
Reside o orgulho de ser tua neta,
Vovô amigo.

Na alma deste papel guardado,
Reside a lembrança, querido Vovô amigo
Do cristalino espírito de tua vida.

Paty do Alferes, RJ - 05 de junho de 2010

Ser ou não ser? Eis a questão.

O que foi,
foi.
O que não foi,
não foi.
O que não é,
talvez venha a ser.

O que foi,
não deixará de ter sido.
O que não foi,
não virá a ser.
O que não é,
continua não sendo
até que seja.